Crítica – 001

August 17, 2015 por Pericles Junior

Impressionante. O Pericles é um profissional respeitado e sua arte mostra isso. Em “Carnívora” ela é mais solta e crua do que em “Lia”, por exemplo, mas perfeita para o roteiro.
Como o Doutrinador, Carnívora mostra como essa geração conseguiu realizar o casamento entre nossa dura realidade e a influência inevitável da cultura pop americana. Só especulando, acredito que “Tropa de Elite” tenha uma participação nisso.
Carnívora tem um argumento redondo com algumas referências deliciosas que não vou contar porque seriam spoilers brabos. Mas o argumento estipula “o que” acontecerá. “Como” acontecerá é onde Carnívora cresce. Exemplo: a cena onde a personagem fala ao telefone enquanto examina seu corpo no espelho é um perfeito exemplo de como o argumento pode caminhar ao lado de gestos triviais e aparentemente inúteis, mas que tornam o personagem mais humano, com maior poder de envolver e criar identificação com o leitor. Péricles é um grande criador de personagens que sabe aproveitar muito bem cada espaço para mostrar uma faceta humana, aumentando seu papel de simples “atores” do enredo. Também vale para seus diálogos, diretos e carregados de gírias, mas muito naturais. E isso é mais difícil do que parece, acreditem.
Sou um fã de terror assumido, mas também reconheço que é um gênero que facilmente descamba para uma repetição tediosa dos mesmos clichês de sempre. Tem alguns destes clichês em Carnívora? Sim. Mas Pericles entende o que é terror e seu potencial para metáfora e fábula. Usou na medida certa os protocolos do gênero, mas temperou com elementos vindos de outros gêneros, e criou algo que guarda algumas surpresas. Só isso já é o bastante para valer à pena.
Bravíssimo, parceiro.

 

Osmarco Valladão – Roteirista de quadrinhos.

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